Miracle of Sound

O mundo dos jogos estende-se muito para lá dos jogos propriamente ditos e a prova disso é o quão bem sucedidos alguns artistas musicais conseguem ser ao criar músicas inspiradas em jogos. Miracle of Sound é um destes, com algumas das suas músicas já tendo sido usadas para promover jogos (como Mass Effect 3) e até mesmo usadas nos próprios jogos (Seven e Wasteland 2). Aqui no Gaming-PT tivemos o previlégio de entrevistar Gavin Dunne, a mente e voz por detrás de Miracle of Sound, para ficar a conhecer um pouco melhor este fã de jogos que é também um músico bem sucedido, graças ao nicho que conseguiu aproveitar: o de músicas inspiradas por grandes personagens e histórias que encontramos em video-jogos, series e filmes.

João Santos: Olá Gavin e obrigado por deixar-nos entrevistar-te. Conta-nos, como nasceu a ideia de Miracle of Sound? E porquê criar músicas inspiradas em jogos, séries e/ou filmes?

Gavin Dunne: MOS começou quando criei uma música meio tola sobre Gordon Freeman, por puro divertimento e para me animar quando a minha antiga banda acabou. Não esperava que tivesse ganho tanta atenção mas quando isso aconteceu percebi que era um nicho, uma oportunidade há espera de ser desenvolvida. Actualmente as minhas músicas são tão diferentes de como eram que nem podem ser comparadas, mas tenho de dar crédito a elas por serem as bases sobre as quais cresci. Quanto ao ‘porquê’, eu pergunto ‘porque não’?. Acho que qualquer artista é inspirado por aquilo de que gosta e experiência na vida. Kate Bush fez ‘Wuthering Heights’, Mastodon escreveu um album inteiro sobre ‘Moby Dick’… histórias são inspiradoras!

JS: Os teus trabalhos não têm passado despercebidos pelos criadores de jogos. Não só algumas das tuas músicas têm sido usadas para promover alguns jogos, como é o caso da  “Take it Back“, usada para promover o jogo Mass Effect 3, como algumas delas – incluindo a que começou tudo, “Gordon Freeman Saved My Life” – foram incluídas em jogos. Como começaram estas colaborações? Foste tu que as submeteste como algo fan-made ou foram eles que te contactaram?

GD: Isso foi um mod, certo? Não me lembro bem o que aconteceu na altura mas lembro-me de que estava bem com isso, ahah. Quanto as músicas usadas para jogos (Seven and Wasteland 2), os estúdios que os criaram já conheciam outros trabalhos meus e pediram-me para me envolver nestes.

JS: Obviamente que não pudemos deixar de falar do jogo que marcou esta década, Mass Effect 3. Criaste várias músicas baseadas no jogo, algumas foram usadas para promover a saga, e até tiveste a Jennifer Hale e o Mark Meer a fazerem ‘leituras dramáticas’ de algumas partes da tua música “Commander Shepard“. Como te sentiste ao ver essas ‘leituras dramáticas’? E trabalhaste com eles pessoalmente?

GD: Bem, na verdade fique bastante chateado com o primeiro vídeo de Mark Meer, porque os produtores do vídeo não me deram nem à música o crédito desta, ahah. Mas certificaram-se que isso foi feito com o vídeo da Jennifer Hale, portanto está tudo bem. E sim, foi bastante divertido ouvir os actores da personagem Commander Shepard a ler a ler linhas da minha música.

JS: Já que estamos a falar de trabalhar com a BioWare para Mass Effect 3, como te sentiste quando viste as gravações in-game que a BioWare te arranjou antecipadamente, para lançares o vídeo da “Take it Back” no mesmo dia do lançamento do jogo?

GD: Foi espectacular! Estava bastante entusiasmado quanto ao jogo, vê-lo antes de ser lançado foi bastante bom.

JS: Claro que não pudemos referir Mass Effect 3 sem falar no seu final, se é algo que estás disposto a falar. Como jogador, quais os teus sentimentos relativamente à situação do final do jogo?

GD: O fim da saga quebrou o meu coração nerd. Nunca mais fui capaz de voltar a pegar no jogo, saber como acaba tirou o sentido à ideia de o voltar a jogar.

JS: Vamos deixar Mass Effect e falar um pouco mais do teu trabalho no geral. No teu ‘end of year vlog 2017’, referiste como passaste o ano a fazer músicas que ‘querias fazer’. Isso significa que já tiveste de fazer músicas a pedido de outras pessoas e/ou grupos, mesmo não sendo músicas que estivessem nos teus planos?

GD: Não, apenas significa que antes estava mais focado em fornecer aquilo que achava que os meus ouvintes queria, e não ao que eu queria fazer. No ano passado, mudei as prioridades e passei a focar-me na música que me faz feliz como 1ª prioridade.

JS: O ano de 2017 veio com um anúncio surpresa por parte do YouTube, que estaria a mudar as suas políticas incluindo a de monetização. Esta controvérsia continuou ao longo do ano. Sentes que as mudanças te afectaram ou que podem afectar o teu futuro?

GD: A mudança no algoritmo afectou-me mais do que as questões do dinheiro. É agora mais difícil para que conteúdo criativo seja visto. O YouTube tende a dar prioridade a vídeos de drama e partidas o que faz com que alguns ‘vloggers’, embora originais, vejam o seu conteúdo a ser subterrado. Isto tem sido o padrão para quase todos os criadores que conheço.

JS: Até ao momento lançaste 8 álbuns, intitulados de Nível 1 até a Nível 8. Prevês algum ‘limite de nível’ no futuro?Miracle of Sound Level 8

GD: Nem pensar! Continuarei a fazer álbuns enquanto as pessoas os ouvirem!

JS: Como talentoso músico e jogador aficionado, tens dificuldade em gerir o tempo entre jogar, ver séries e filmes, escrever e produzir música, e, claro, a tua vida social? E alguma vez tiveste alturas em que sentiste que não estavas a jogar ou a ver séries/filmes por diversão mas sim porque o tinhas de fazer para este teu trabalho?

GD: Muitas vezes, sim. Mais recentemente tive de desligar o meu sistema de gravação enquanto jogava God of War porque estava a estragar-me o jogo ao forçar a constantes pausas e capturas de imagem. O jogo é demasiado bom para ser estragado assim… e com isto já tenho uma boa desculpa para o voltar a jogar! Na maioria das vezes não há problema, felizmente. É um bom problema de se ter, o de misturar a ‘mente de trabalho’ com a ‘mente de diversão’.

JS: Esta próxima pergunta poderá ser um pouco mais difícil: entre todas as tuas músicas, se tivesses de escolher algumas que representassem o teu trabalho, quais escolherias?

GD: Dream Of The Sky, por variedade musical
Wake the White Wolf, pelas emoções
Stay By My Side, pela letra
When The Wolves Cry Out, pela minha paixão por Game Of Thrones
I Am Alive, por expressão pessoal.

JS: Continuando da pergunta anterior, tens alguma tour preparada para o futuro próximo? Adoraria ouvir Lady of Worlds live.

GD: Não, de momento não tenho nem planos nem interesse em tours. Consome demasiado tempo, dinheiro e interfere com o meu ritmo de trabalho.

JS: Algum conselho para músicos que, como tu outrora, tenham grandes dificuldades em ter quem veja os seus trabalhos?

GD: Gostava de ter resposta para isso. O meu trabalho cresceu de forma orgânica e por vezes sinto que deveria crescer mais. Não há resposta fácil. Contudo, dedicar tempo, esforço e prática para ser o melhor é a base essencial. Mesmo quando se tem uma audiência pequena. Eu criei entre 700 e 800 músicas antes de Miracle of Sound. Trabalha. Pratica as tuas aptidões artísticas. Persiste e continua mesmo depois das inevitáveis e múltiplas falhas e desapontamentos. Isto não garantirá sucesso mas não fazê-lo garante que irás falhar.

JS: E não poderíamos terminar esta entrevista sem perguntar: qual o teu jogo favorito? E tipo de jogo?

GD: Eu adoro jogos onde possa explorar e experimentar um excelente mundo. Alguns dos jogos que ganharam o meu favoritismo ao longo dos anos são Fallout 3, Witcher 3, A Link To The Past, Horizon: Zero Dawn, Assassins Creed 2 e claro Mass Effect 2.

JS: Aí está algo que temos em comum. Mais uma vez obrigado por esta entrevista, Gavin. Espero que continues a fazer músicas excelentes durante muitos anos.

Para os que querem conhecer melhor o trabalho de Gavin, podem ir à página principal de Miracle of Sound e encontrar lá muitos links para outros sítios onde o seu trabalho está exposto, como bandcamp, Facebook page e obviamente YouTube channel. E para os que não o conhecia nem nunca ouviram alguma das suas músicas, então comecem a ouvir assim que puderem. Garanto-vos que não se vão arrepender.

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