Mass Effect Andromeda

Cinco anos depois de Mass Effect 3, a BioWare lança para o mercado Mass Effect: Andromeda, um novo jogo da saga que não é nem sequela, prequela ou reboot mas sim um nova história situada numa galáxia diferente. Carregado de conteúdo, ao ponto de ser um dos maiores RPGs já lançados pela BioWare em termos de conteúdo e diálogo, Mass Effect: Andromeda mostra-se como sendo uma mistura entre o espírito de explorador de mundos presente em Mass Effect 1, e as mecânicas de Dragon Age: Inquisition.

Mas apesar dos longos anos que tiveram para preparar,  Mass Effect: Andromeda vem com alguns defeitos graves.

 

A história

Com a galáxia Via Láctea já acessível, a multibilionária Jien Garson decide investir numa missão de exploração sem precedentes: enviar voluntários para a galáxia mais próxima de nós, Andromeda. Juntando investidores de toda a galáxia, o projecto é denominado Andromeda Initiative e consiste no envio de uma mega-estação para essa galáxia, juntamente com naves-colónia chamadas Arks. Dentro delas vão dezenas de milhares de voluntários das várias raças da Via Láctea (inicialmente humanos, asari, turians, salarian e krogan) num estado de hibernação pois a viagem dura mais de 600 anos. Juntamente com elas vai uma nave-mãe, o Nexus, uma estação gigantesca do tamanho da Citadel, e que servirá de centro de governo para as várias colónias em Andromeda.

O objectivo é explorar Andromeda, nomeadamente o Heleus Cluster, um aglomerado de dezenas de estrelas e centenas de mundos, muitos promissores, que orbitam um gigantesco buraco negro, e fazer dessa região uma nova casa. Claro que toda a iniciativa tem grandes riscos, sendo os maiores o encontrar raças hostis ou os mundos promissores não serem viáveis para colonização. É aí que entram os Pathfinders, um grupo elite responsável por explorar o cluster, encontrar mundos viáveis para colonização, ajudar as colónias em tarefas difíceis e acima de tudo estabelecer contacto com nativos de Andromeda.

Andromeda Ark
Uma das Arks, a aproximar-se da galáxia Andromeda

 

Em Mass Effect: Andromeda controlamos ou Scott Ryder ou Sara Ryder, irmãos e filhos de Alec Ryder, o Pathfinder da Ark Hyperion, a nave onde vãos os colonizadores humanos. Alec, para além de ter sido um dos pioneiros a atravessar o Mass Relay que conduziu a humanidade à comunidade galáctica encontrada na primeira saga Mass Effect, foi também um dos primeiros agentes N7, e o responsável pela criação de uma Inteligência Artificial chamada SAM, ligada directamente ao cérebro dele e de outros Pathfinders e cuja ajuda é essencial para os exploradores (especialmente se tiverem de lidar com tecnologia alien).

Contudo, quando a Ark chega ao destino, o planeta denominado Habitat 7 e cujas projecções indicavam ser ideal para vida humana, esta quase que colide com uma gigantesca nébula artificial de ‘energia negra’, nébula essa cujos filamentos se encontram a esbarrar no planeta. O impacto dela vai para além do que o conhecimento e a tecnologia permitem estimar e por isso Alec decide descer ao planeta com o/a protagonista. Rapidamente a missão vai para o torto, revelando que a nébula, denominada de Scourge, destruiu parcialmente o ecosistema do planeta, como está relacionada com antigas ruínas de uma raça desaparecida capazes de afectar o clima de todo um planeta. E para juntar a isso tudo, existem ainda os kett, uma raça hostil que não vê com bom grado outros a interferirem com essas ruínas.

Embora sejam bem sucedidos em impedir a continuada destruição do ecossistema do planeta, por parte da Scourge e das ruínas, Alec Ryder morre no processo e passa SAM para o protagonista. E bem antes de este ter tempo para chorar a morte do pai, é informado que toda a Andromeda Initiative está em perigo pois não só o Nexus teve demasiados problemas e está com falta de recursos, como mais nenhuma das outras Arks deu sinais de vida. Caberá a Ryder (Scott ou Sara) descobrir novos mundos, torná-los viáveis para colonização, ao mesmo tempo que procura o paradeiro das outras Arks e ainda resolve o conflito com os kett.

 

Com a mudança de galáxia, a equipa da BioWare conseguiu assim evitar o polémico final de Mass Effect 3, já que Mass Effect: Andromeda começa com as Arks a partir pouco depois dos eventos de Mass Effect 1. Existem, claro, outros pontos questionáveis como a validade de vender o sonho de ir para Andromeda usando projecções de potenciais planetas com um atraso de 2,5 milhões de anos de diferença entre os dados obtidos e a realidade (distância, em anos de luz, entre as duas galáxias) ou como arranjaram tanto dinheiro para construir estações e naves tão grandes quanto a Citadel, pois se isso era possível então já haveriam várias dessas estações e certamente naves muito maiores do que os dreadnaughts apresentados na primeira saga. Contudo, estes pontos acabam por ser explicados, em parte, à medida que exploramos o jogo. Juntamente com eles, aparecem várias referências à saga anterior como por exemplo ficar a saber que os Geth estavam a usar Mass-Relays como telescópios para vigiar o espaço entre galáxias (de onde vinham os Reapers) e como ‘algo grande na Via Láctea assustou as pessoas que iniciaram a Iniciativa Andromeda’, novamente uma referência aos Reapers e à necessidade de enviar pessoas para escapar à destruição que estes pudessem trazer.

 

Diálogo, personagens e clichés.

Mass Effect: Andromeda é provavelmente o jogo com maior conteúdo em termos de história e interação entre personagens e NPCs, com mais diálogo e falas gravadas do que qualquer outro RPG lançado pela BioWare. Contudo, a qualidade deste é questionável e rapidamente notamos que os developers caíram na falha de deixar a quantidade afectar a qualidade. Muitos dos diálogos são simplistas, muitas das escolhas sem grande impacto ou demasiado limitadas a “apoio X ou apoio Y” sem nos deixar responder um óbvio “vou é apoiar Z”. Alguns dos diálogos até usam palavreado que é tudo menos natural à fala e parecem ser criados por crianças em certos pontos do jogo, o que nos faz sentir que Ryder é pouco mais do que um jovem longe de ser a nossa personagem. A ilusão da escolha, a fraca e previsível história bem como o guião dos diálogos, dá a sensação de que não estamos dentro do jogo, estamos apenas a ver uma personagem pré-definida a avançar por este, algo que vai contra o espírito dos RPGs. Uma personagem que é pouco afectada pela morte do pai e que parece ser incapaz de levar as coisas a sério, ou pelo menos nunca perde o sentido de humor. Mas também, em parte compreende-se pelo facto de ser jovem e de nunca ter tido uma relação próxima com Alec.

Squadmates em Mass Effect: Andromeda
Squadmates em Mass Effect: Andromeda

Em termos de personagens, pode-se dizer que no geral estão decentes mas que a BioWare continua a não conseguir evitar os clichés. Primeiro é importante mencionar que a maioria das personagens são claramente jovens. O que faz sentido dado que poucos com uma vida bem estabelecida na Via Láctea iriam querer largar tudo para arriscar numa nova galáxia. Esse espírito aventureiro está maioritariamente presente nos jovens e isto nota-se nas personagens existentes. Mas infelizmente há algumas personagens que são claros estereótipos: desde a soldado que só sabe agir como treinou e de acordo com ‘o manual de treino’, sem ser capaz de pensar fora-da-caixa, à jovem curiosa e irresponsável que nunca pensa nas consequências antes de ter atitudes e acções precipitadas pois é alguém que faz de tudo para ‘não apanhar seca’, ao engenheiro que faz o que quer fazer na nave sem antes falar com outros porque ‘eu sou engenheiro, eu é que sei’.

Para além dos clichés, a equipa não conseguiu evitar voltar às origens: temos os ‘remnant’, nada mais do que uma raça extinta que deixou muitas ruínas para trás (tal como os prothean), há facções de krogan hostis à Andromeda Initiative, piratas e gangs liderados por humanos, turians, etc. Embora a explicação dada para estas facções existirem, dá a sensação de que foi somente falta de criatividade já que podiam ter simplesmente criado mais uma ou duas raças nativas que se comportassem dessa maneira. E pelo menos um dos mundos é claramente baseado em Tatooine (Star Wars) e Arrakis (Dune) ao ponto de ter uma ‘minhoca gigante’.

E muito à semelhança de Inquisition, Mass Effect: Andromeda começa com a atribuição do título Pathfinder à nossa personagem, um título com o qual não temos nenhuma relação e no qual metem demasiada importância. Aliás, o que dão a entender nos diálogos é que o Pathfinder é basicamente o responsável pela sobrevivência da Iniciativa, como se outros não conseguissem encontrar mundos para habitar e resolver os problemas neles. E infelizmente isto acontece também graças ao cliché da personagem principal a perder o pai, Alec Ryder, uma perda que claramente tem impacto na nossa personagem (e até na história) mas com o qual os jogadores não conseguem criar qualquer ligação emocional porque Alec está apenas presente na primeira meia hora de jogo e pouca interacção temos com ele.

 

Como não seria deixar, Mass Effect: Andromeda conta também com romances entre o/a protagonista e outras personagens. Opções são muitas mas claramente viradas para personagens heterossexuais. Ao menos não tiveram problemas com nudez.

 

Jogabilidade

Apesar de várias falhas (já vamos a elas), Mass Effect: Andromeda apresenta uma jogabilidade muito mais fluída e livre do que os antecessores. Graças a SAM, Scott ou Sara têm a possibilidade de ir para além das limitações de classes existentes anteriormente. Por não haver limitador de nível, pudemos ter todos os poderes e alternar entre eles livremente. O combate está também muito mais fluído e rápido, definitivamente uma grande melhoria relativamente aos títulos anteriores.

A exploração de mundos está bastante boa, recorrendo ao veículo Nomad, para nos levar a vários locais rapidamente. Com ele subimos montanhas, atravessamos vales e pudemos mesmo descobrir recursos que têm de ser extraídos. Claramente sentimos o espírito de explorador que existia em Mass Effect 1. E como não podia deixar de ser, todos estes mundos estão carregados de missões.

O jogo contempla também um sistema de crafting grande, carregado de recursos, que a meu ver está bom mas pode ser tedioso.

Infelizmente a opção de tornar o interface mais amigável para consolas faz com que no PC o jogo se torne mais confuso pois só pudemos ter até 3 poderes ‘gravados’ em hotkeys, perfazendo uma combinação, e um máximo de 4 combinações gravadas que só se mudam pausando e navegando para dois menus.

Juntamente com isto, está também o erro de não nos permitir alterar o equipamento dos membros da equipa. Pudemos evoluir os seus poderes mas de resto nada mais.

Mas o problema maior, da jogabilidade, está nos vários menus do jogo que são confusos e mal distribuídos, com um sistema de ‘sub-pastas’ que não indica em que ‘pasta’ estamos realmente, nem que outras ‘sub-pastas’ encontramos lá dentro.

 

Gráficos e banda sonora

Ainda antes de Mass Effect: Andromeda ser lançado, as críticas aos gráficos já se faziam ouvir. Não é que sejam maus, estão ao nível dos de Mass Effect 3 e de Dragon Age: Inquisition. Mas a mudança para o motor Frostbite 3 (o mesmo usado em  Inquisition) em vez de usarem Unreal Engine 3 (o usado em Mass Effect 3), bem como o tempo despendido para criar todo o conteúdo, fez com que houvessem grandes falhas nos gráficos. Os gráficos de cenários e dos mundos que se podem visitar estão espectaculares e bastante coloridos (fugindo assim ao ambiente geralmente negro de Mass Effect 2 e 3), mas em termos de expressões e movimentos faciais o jogo tem falhas gigantes. E o problema vai para lá dos olhos que não se movem adequadamente durante as conversas, está mesmo presente nos movimentos de boca, no franzir de testas, etc. Por exemplo, um membro da equipa, a Cora, tem quase sempre o mesmo sorriso sem nunca mexer olhos, lábios, bochechas, testa, dando a sensação de ser alguém cuja cara foi vítima de demasiadas cirurgias plásticas.

Nomad em Mass Effect: Andromeda
Nomad num mundo árido

Juntamente a estas, podemos contar com falhas como ter chuva a cair na face das personagens mesmo quando estas usam capacete, difícil navegação no mapa estelar com sucessivas pausas na aproximação de planetas e sistemas solares, bugs como entrar dentro de rochas, e pesados requisitos de hardware que nos forçam a ter máquinas topo-de-gama ou a ter de correr o jogo com um nível gráfico mediano em vez de bom.

Por vezes os bugs de gráficos são tão maus que afectam as personagens e inimigos, congelando-os, impedindo-os de agir.

Felizmente a BioWare reconhece as falhas e já prometeu corrigir algumas destas em futuras patches.

Em termos de banda sonora, não está ao nível da usada na saga anterior. Aliás, em muitas alturas ela passa despercebida. Ainda assim, não é má de todo.

 

Veredicto Final

Mass Effect: Andromeda está longe de ser um mau jogo mas com as falhas desaponta os fãs e está longe, em termos de qualidade, de Mass Effect 3.

Inovação: 6,8 em 10. As mudanças na jogabilidade, bem como a grande liberdade que temos no desenvolver da nossa personagem, são grandes pontos positivos do jogo. O combate muito mais fluído também. Infelizmente, não pudermos mudar o equipamento dos membros da equipa, a dificuldade na navegação dos menus, e o forçarem pausas na aproximação de sistemas solares e dos vários pontos de interesse neles, baixam esta classificação. A pouca informação que  dão para cada mundo, na exploração espacial, a fraca criação de personagem (em que todas as personagens criadas são feias, piores que as de Mass Effect 1) e o simples facto de termos todo um novo universo novo mas que está cheio do mesmo que encontramos na Via Láctea, também mostra alguma falta de interesse em desenvolver mais um jogo que tinha um enorme potencial.

O multiplayer é também monótono e cópia do anterior (e cheio de micro-transacções). O combate é bom, sem dúvida, mas o multiplayer tem um modo apenas, e não inova em nada.

Gráficos: 6,5 em 10. Se corrigirem as falhas das expressões faciais, facilmente chega a ser um 8 em 10. Ainda assim, aquém dos gráficos do anterior.

Mecânica: 6 em 10. Todas as falhas existentes na navegação, na limitação de puderes para hotkeys, etc, não conseguem ser compensadas pelas boas evoluções.

Conteúdo: 7 em 10. Gigante é a palavra adequada para o conteúdo de Mass Effect: Andromeda. Dezenas de horas de jogo não chegam para explorar todos os cantos deste. E em termos de exploração, vale bem a pena.

Execução: 6,5 em 10. Quando se tem milhões ao nosso dispor e mais de 3 anos de trabalho entre centenas de membros, seria de esperar um trabalho com melhor qualidade. É verdade que gráficos não são tudo mas num jogo como este gráficos afectam bastante a ‘imersão’, sendo esta uma das mais importantes características dos jogos e principalmente RPGs. Falhas deste nível não são aceitáveis nos dias de hoje, muito menos vindos de um estúdio tão bom como a BioWare. Se corrigirem a sério as falhas existentes, então novamente chega a um 8 em 10.

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