Pathfinder Kingmaker

Pathfinder, um gigante RPG de mesa, chega agora ao mundo dos jogos virtuais com Kingmaker. Para muitos, este seria sem dúvida um dos melhores RPGs já lançados e tem muito para isso. É um ‘RPG clássico’ passado no mundo de Pathfinder que tenta replicar o jogo de mesa, muito à semelhança de clássicos como Baldur’s Gate, Icewind Dale e Neverwinter Nights.

 

O que podemos esperar de bom em Pathfinder: Kingmaker?

Começando pelo que considero ser o melhor ponto: o jogo é grande, largas dezenas de horas são necessárias para o completar. Isto devido à sua complexa história que nos leva a conhecer muitas casas nobres e os conflitos entre estes.

Outro ponto forte está no facto de os companheiros de equipa serem únicos em termos de personalidade o que nem sempre permite uma coexistência pacífica. E a maneira como lidamos com eles pode até mesmo alterar eventos que ocorram e dar-nos mais opções durante o jogo.  Juntamente a esta, as personagens são ‘moldáveis’, com NPCs e a nossa própria personagem a puderem mudar de alinhamento com as decisões tomadas.

Para além da história e das personagens, em Kingmaker iremos encontrar pontos fortes como gerir o nosso próprio castelo, gráficos espectaculares e até mesmo a adição de mecânicas de gestão de recursos para exploração (montar campo, gerir a fadiga das nossas personagens, etc) e uma jogabilidade muito familiar para quem conhece o RPG de mesa Pathfinder e para quem já jogou RPG’s clássicos. E como não podia deixar de ser, há imensas opções de classes, o que dará ao jogo uma enorme ‘replayability’.

É notável o esforço que a Owlcat Games meteu neste jogo que tem tudo para ser bom, mesmo que apesar de tudo não seja fenomenal. Só há um sério problema…

O que torna o jogo frustrante e mau.

Uma vez que em cima começamos por mencionar a história, começaremos também pelo ponto mau nesta: há tempo limite em main quests. Sim, leram bem, tempo limite em main quests. Bem como outros eventos. Embora compreenda esta necessidade em termos de desenvolvimento de história, é um ponto absurdamente irritante. Muitos fãs de RPGs gostam de completar todas as quests secundárias antes de continuarem a principal. Para além de que nos força a ficar parados em algumas localizações, já que viajar pelo mundo de Pathfinder consome tempo.

E por falar em ‘viajar pelo mundo de Pathfinder’, é aqui que encontramos mais pontos negativos. Como disse em cima, quando estamos a explorar o mundo teremos de gerir recursos para viabilizar essa mesma exploração. As questões como fadiga e ‘descanso’ é algo que é um ponto forte, mas que eventualmente se tornam cansativas para muitos jogadores. Algo que não aconteceria se houvesse, por exemplo, ‘viagem rápida’ dentro do mapa, onde saltássemos instantaneamente de um ponto para outro e o jogo apenas calcularia os recursos e tempo consumidos. Mas não, em Pathfinder isso não foi adicionado o que significa que teremos de explorar manualmente um caminho até um dado local e depois teremos de repetir o mesmo para regressar. Ora isto duplica a frustração da fadiga e descanso e afins. Para além de tornar tedioso a exploração já que irá ocupar muito mais tempo de jogo. Para piorar, o número de ‘encontros aleatórios’ é imensamente elevado o que torna o jogo mais frustrante. Da forma como o jogo está agora, ‘encontros aleatórios’ são a norma, não a excepção.

E com isto entramos no pior ponto do jogo: o combate. Este não é mau em termos de mecânica, já que esta segue as regras do RPG de mesa (que é baseado em lançamentos de dados virtuais, maioritariamente d20), mas está absurdamente desequilibrado. Quem não conhece, Pathfinder é um jogo baseado em níveis e classes mas juntamente com isso as personagens têm estatísticas como força e inteligência, e habilidades para além das fornecidas pelas classes, as feats, sendo que estes todos fornecem as estatísticas de combate. Com estes é possível optimizar bastante uma personagem para se tornar a melhor num dado papel em combate. E o que acontece neste jogo é que praticamente todos os inimigos estão imensamente optimizados para combate mas os restantes membros da equipa não. Muitos combates estão ridiculamente desajustados, atirando para cima de uma equipa de nível 2 desafios que só são indicados para uma equipa de nível 6, já que muitos monstros tiveram as suas estatísticas melhoradas (quando comparamos com os monstros dos livros Bestiary de Pathfinder). Para piorar, a inteligência artificial dos inimigos é muito superior à dos companheiros e aliados. Este problema seria possível de ultrapassar se houvesse a possibilidade de criar uma equipa inteira logo no inicio do jogo, e optimiza-la, mas tal é impossível já que requer uma quantidade enorme de moedas de ouro.

Claro que este problema não advém apenas do jogo em si mas do sistema. Já com a edição 3.5 de Dungeons & Dragons este problema era bem perceptível: os monstros dos livros eram bastante fracos e desequilibrados e o próprio sistema d20 sofre de grandes ‘picos de poder’ onde subir um nível facilmente nos torna 2 ou 3 vezes mais poderosos do que antes fazendo com que desafios que antes eram médios passem a ser quase insignificantes. Quando se tinha em conta a optimização que os jogadores faziam às suas personagens, rapidamente chegávamos a ter uma equipa de nível X a derrotar facilmente monstros que supostamente só seriam derrotados por uma equipa de nível X+3. Nos meus muitos anos de experiência com D&D 3.5 e Pathfinder, cheguei mesmo a ver equipas de nível 8 a derrotar monstros de nível 13 sem grande dificuldade.

A maneira de dar a volta à optimização dos jogadores era optimizar ao máximo NPCs e melhorar as estatísticas de outros monstros. Isto faz sentido quando falamos em sessões de RPG de mesa, onde combates são esporádicos ou envolvem poucos inimigos (mais do que isso torna o jogo difícil de avançar). Mas quando se fala de um jogo de computador onde se enfrentam imensos inimigos numa só batalha ao mesmo tempo onde temos batalhas em cada poucos minutos (por causa dos ‘encontros aleatórios’), rapidamente chegamos a uma situação incomportável onde o jogo não se vence por estratégia mas sim sorte e onde teremos de repetir o mesmo combate muitas vezes até que finalmente ocorra um lançamento de dado melhor que faça com que seja possível vencer.

Claramente os developers quiseram criar um jogo difícil, com Pathfinder: Kingmaker. Um que não fosse apenas difícil em ‘bosses’ mas que fosse bastante desafiante ao longo de todo o jogo (algo que não acontece  muito com RPGs clássicos, não sem mods pelo menos). Infelizmente saltaram logo para o outro lado do espectro e tornaram o jogo demasiado frustrante para se jogar.

Para tornar tudo ainda pior, este desequilibro não é recompensado de maneira alguma: o XP que se adquire foi bastante reduzido quando comparado com o indicado pelas regras. Com as batalhas que Kingmaker nos coloca à frente, deveríamos chegar ao final do primeiro arco de história a pelo menos nível 9 mas em vez disso se chegarmos a nível 4 já é muito bom. Isto não é errado, reduzir o XP que se ganha e consequentemente o número de vezes que se sobe de nível é um passo correcto em jogos de computador (novamente devido ao elevado número de desafios que existe num jogo de computador quando comparado com um de mesa), e os RPGs clássicos faziam o mesmo. Mas ao contrário deste os clássicos não tornavam o jogo frustrante com o seu nível de dificuldade.

 

Com tudo para ser bom, infelizmente Pathfinder: Kingmaker falha no essencial e consegue tornar o jogo menos divertido do que poderia ser. Enquanto não saírem patches, aconselho apenas a jogarem nos modos mais fáceis.

 

Pontuação geral: 6/10

 

REVIEW GERAL
Avaliação pessoal
6
Engenheiro de profissão e gamer por gosto, João Paulo adora boardgames, RPGs de mesa e computador, RTS e shooters e olha para jogos para uma excelente forma de arte, transmitir emoções e contar histórias fenomenais.

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