Slay the Spire

Um dos tipos de jogos de tabuleiro que mais gosto são os chamados “Deck-builders”. Gosto da ideia de um jogo de cartas (cooperativo ou com os jogadores uns contra os outros) em que todos os jogadores começam no mesmo patamar e dependendo das suas escolhas o poder do baralho de cada jogador vai aumentando de uma maneira ou outra. Normalmente são jogos com vários tipos de recursos e recompensam imensamente os jogadores capazes de ler e perceber o que os outros jogadores estão a fazer e até o que eles próprios estão a fazer.

Slay the Spire é um deck builder para o computador. Quando me apresentaram o jogo (que ainda está em fase de desenvolvimento, com novos patchs a sair regularmente) fiquei reticente. As duas premissas base de um deck-builder é que é um jogo de tabuleiro e que é para 2 ou mais jogadores. Slay the Spire apresenta uma variação deste conceito, sendo um jogo para computador em single player.

Slay the Spire

 

Como funciona um deck builder

Antes de falar mais do jogo em si, quero tomar um minuto para garantir que toda a gente sabe do que estou a falar. Um deck builder funciona de forma parecida a um jogo de cartas normal (pensem Magic, Hearthstone ou Eternal) e alguns conceitos são bastante parecidos, como por exemplo usar um recurso para pagar pelas cartas e cada jogador tem vida que ao longo do jogo vai descendo, fazendo com que o jogador perca quando chegar a 0 de vida.

Mas as parecenças acabam aí. Ao contrário dos exemplos que dei, um deck builder não é um jogo de cartas coleccionáveis. Existe um conjunto finito e limitado de cartas com que se joga, fazendo com que em troca de só precisar de investimento uma vez,   as possibilidades são bastante mais limitadas porque não vão existir cartas novas.

Além disso, cada jogador começa o jogo com exactamente as mesmas cartas que todos os outros jogadores. Estas cartas iniciais tendem a ser as mais fracas do jogo e são usadas para adquirir cartas mais poderosas. Neste jogos tende a haver 2 tipos de recursos Ouro e dano (vai variando de jogo para jogo, mas existe sempre um recursos para comprar cartas e outro para poder atacar o oponente). As cartas que o jogador tem não têm custo, podendo ser todas jogadas no mesmo turno (normalmente o turno acaba com o jogador a comprar até ter o limite de cartas na mão), servindo o ouro para comprar cartas de um loja onde estão todas as cartas ainda não adquiridas por um jogador.  Uma vez comprada, uma carta nova é colocada no deck do jogador para que possa ser comprada e usada mais tarde.

As mecânicas precisas dependem de jogo para jogo mas geralmente falando é isto. Os jogadores tentam obter as cartas que melhor encaixam na sua estratégia enquanto tentam privar os oponentes das suas fontes de ouro.

 

Como é que o Slay the spire adaptou este conceito

Slay the Spire concebeu um meio termo, entre os TCGs tradicionais e os Deck-Builders tradicionais, colocando-se num patamar que pode ser apreciados pelos fãs de qualquer um dos géneros.

Tal como o nome indica, o objectivo do jogo é matar tudo (ou quase tudo) que existe numa subida. Cada uma destas subidas tem vários caminhos e se cruzam e divergem, com vários pontos de entrada diferentes e acabando sempre num boss:

Depois de cada casa o jogador escolhe a próxima para onde quer ir podendo optar por caminhos mais seguros mas com menos recompensas ou por caminhos mais perigosos mas que vão dar mais bónus…. Se sobrevivermos. A única casa obrigatória em cada subida é a sala do boss final, onde todos os caminho convergem num só ponto.

O jogo disponibiliza duas classes, que em termos de D&D seriam um fighter e um rogue. O Fighter tem cartas que individualmente são mais poderosas, mas não consegue jogar muitas por turno, ao contrário do rogue que apesar de ter cartas mais fracas consegue jogar várias por turno. Dentro de cada classe existem várias estratégias possíveis e os jogadores podem até tentar estratégias híbridas usando um pouco de várias estratégias.

Em cada combate (e em alguns eventos) que o jogador ganhe, um dos prémios é uma carta nova para o seu deck (normalmente escolhida entre 3 possíveis, com os encontro normais normalmente dando 3 cartas comuns para escolher, os elites com uma combinação de cartas comuns e raras e os bosses com 3 cartas raras.

Ao contrário dos deck-builders convencionais o jogador não gasta recursos a colocar as cartas no seu baralho, mas antes, tal como Magic e Heartstone, paga o custo das cartas quando as joga durante o jogo.  No início do jogo cada jogador tem 3 de “mana” que pode usar para jogar as suas cartas, mas este número vai aumentando à medida que o jogador sobe a espiral.

 

Dificuldade

Não se deixem enganar pelos gráficos ‘abonecados’ e cores vivas. Na tradição de Demon Souls ou Darkest Dungeon, Slay the Spire é um jogo fácil de aprender mas incrivelmente difícil de dominar e é impiedoso, castigando o jogador por todos os erros ou escolhas erradas que tomar. O jogo não oferece a opção de gravar os jogos ou de várias vidas. Se morrermos, todo o nosso progresso é perdido e voltamos para o início da primeira espiral ( quando derrotamos o boss final de uma subida a nossa vida é colocada o máximo e somos atirados  para o início de uma nova subida com criaturas mais fortes que a última)

Adicionalmente, o jogo foi concebido de modo a não haver uma estratégia vencedora. Existem criaturas que são incrivelmente poderosas contra algumas estratégias e fracas contra outras e se fizermos all-in numa estratégia e encontrarmos uma dessas criaturas a derrota é certa.

É um jogo que nos obriga a adaptar e fazer escolhas, não havendo duas interacções do jogo iguais pois de cada vez que jogamos tantos as cartas que podemos escolher vão sendo diferentes como  as criaturas que encontramos também vão sendo diferentes. Mas um fato é que é incrivelmente frustrante perder o jogo devido a comprar as cartas no momento errado e ter de recomeçar do zero.

 

Opinião final

Slay the Spire é incrivelmente divertido e desafiante e convida-nos a jogarmos várias vezes e a tentar coisas novas. Tudo isto são coisas boas para um jogo. Cada vitória que conseguimos dá-nos a sensação que foi arduamente merecida e cada derrota um gosto amargo na boca que nos faz tentar outra vez.

O jogo ainda tem alguns problemas, mas os patch recorrentes têm corrigido a maior parte, tornando os combates fáceis mais desafiantes e os combates impossíveis fazíveis. E no fim, isto é tudo o que eu posso pedir de um jogo destes, que me faça voltar a jogar e que continue a ser divertido depois de eu ter morrido uma dúzia de vezes na mesma criatura.

Dou facilmente 5 estrelas a este jogo e convido-vos a todos a experimentar.

 

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