The Dwarves

Bem vindos a Girdlegard, um continente rodeado por cordilheiras de montanhas habitadas por clãs de anões. São estes os protectores do continente, incumbidos por Vraccas – o seu deus e criador – de proteger os portões que separam o continente de terras amaldiçoadas e controladas por demónios que existem para lá das cordilheiras. Este é o mundo do jogo The Dwarves, inspirado na saga com o mesmo nome, escrita Markus Heitz.

Neste jogo controlamos Tungdil, um jovem anão que cresceu e foi educado entre humanos, sem qualquer contacto com outros membros da sua raça. O que aprendeu sobre anões foi pelos livros. E visto os livros serem de 2003, a história em si é bastante típica:
– Jovem herói sai da única casa que conheceu a pedido do seu mentor.
– Pelo caminho encontra aliados e sinais de que algo maior se passa.
– Regressa a casa para a ver destruída pelas forças do mal, lideradas por um feiticeiro aparentemente imortal.
– Procura reinos para se unirem contra o feiticeiro e mais aliados para forjarem a única arma capaz de o matar.
– Forja a arma e confronta o feiticeiro, vencendo-o.

Apesar de ter sido um bestseller na altura, para os dias de hoje a história é relativamente banal. O que a destaca é mesmo a forma como é exposta, escrita com uma narração excelente que se manteve no jogo. De facto, The Dwarves só tem mesmo um ponto forte: existe uma narradora que expõe os vários encontros e conversas, e fá-lo bastante bem e capaz de tornar o mais banal dos encontros em algo interessante. Infelizmente, tudo o resto falha.

The Dwarves é um RPG e como tal o seu foco está nas escolhas que pudemos fazer. Fora de combate, teremos a oportunidade de viajar por Girdlegard, ter missões secundárias, ter de enfrentar algumas dificuldades e eventos, e até mesmo ter de lidar com membros da equipa que podem começar a provocar-se uns aos outros. Infelizmente a grande maioria dessas escolhas são insignificantes e sem grande impacto. As escolhas mais viradas para a plot são fixas, se escolhermos o contrário somos mortos. Já os diálogos com personagens simplesmente permitem melhorar ou piorar um medidor de ‘relacionamento’. Seria de esperar que este levasse a mais side quests com personagens com quem temos melhor relacionamento, ou que certos diálogos estivessem fechados quando temos mau relacionamento. Infelizmente a única coisa que isso permite é em combate recuperar ‘pontos de acção’ mais rapidamente.

Já as missões secundárias e eventos que ocorrem, estes são aleatórios. Pudemos encontra-las como não. A maioria é apenas narrada. Outras focam-se em combate mas com um de dois objectivos: chegar a um outro lado do mapa, ou matar todos os inimigos. Embora algumas possam ser interessantes (uma chega mesmo a ser um tributo à banda Blind Guardian), a grande maioria está longe de ser memorável, apesar da excelente narração. Muitas, tal como muitos nomes e locais, passam por nós como se fossem uma mera brisa, sem qualquer impacto ou memória.

E para piorar, as personagens em The Dwarves sofrem do mesmo, tirando meia dúzia. Apesar da grande variedade de aliados disponíveis, e de vermos alguns deles a morrerem durante o jogo, não há grande desenvolvimento destas. As suas histórias são fracas e quase superficiais. E a limitação do que se pode fazer com elas é atroz. De equipamento, apenas pudemos decidir se carregam uma poção ou um amuleto, tudo o resto não pudemos tocar. E quando a personagem sobe de nível, pudemos ganhar a escolha entre duas habilidades diferentes (em muitas personagens nem há escolha alguma). O problema é que no combate, só pudemos ter 3 habilidades levando a que estar a ‘subir de nível’ seja muito irrelevante.

E falando em combate, aquele que deveria ser o ponto forte do jogo mas que é na verdade o pior de todos. Os criadores de The Dwarves procuraram criar um combate táctico, em que pudemos pausar para escolher acções. O problema foi que o forçaram de forma horrível. As personagens, sem ordens contrárias, limitam-se a usar ataques básicos e a atacar o alvo mais próximo. Infelizmente o jogo foi feito de tal forma que os ataques básicos são imensamente irrelevantes, sendo as habilidades especiais as necessárias para enfrentar os inimigos. Isto torna o combate desnecessariamente longo, já que temos de estar sempre a pausar para dar ordens.

Há alguns pontos positivos, como habilidades que projectam inimigos  (podem ser projectados para falésias ou para fora de pontes, por exemplo) e outras que dão dano a inimigos. Se alguma das nossas personagens morrer perdemos o jogo porque elas são importantes para a história. Isto força-nos a ter cuidado e a saber combinar e usar bem as habilidades das personagens.

Infelizmente todos os pontos positivos do combate são abafados pela má inteligência artificial do jogo, a falta de autonomia das outras personagens, um movimento difícil, vários bugs e uma câmara absurdamente irritante que nos segue criando ângulos estranhos. E uma vez que a maioria dos combates resume-se a termos de enfrentar grandes hordas de inimigos, tudo isto leva a uma dificuldade acrescida sem grande sentido.

Nota-se um esforço dos criadores para se manterem fiéis ao livro. Infelizmente isso foi prejudicial para o jogo. Desde a impossibilidade de mexer no equipamento, a escolhas poucos significativas, a uma história que para o final do jogo foi imensamente apressada. A sensação que dá é que The Dwarves foi outrora um jogo que no papel funcionava bem mas cujo resultado final não é memorável nem consegue competir com os RPGs de hoje em dia. Entre jogar este jogo ou ler o livro, só se recomenda o jogo caso queiram ver uma sinópse da história e do mundo de Girdlegard contado ao longo de 10 horas de jogo. Se lêem rápido ou não se importam de passar mais de 10 horas a ler, então peguem antes no livro.

REVIEW GERAL
Avaliação Pessoal
5
Engenheiro de profissão e gamer por gosto, João Paulo adora boardgames, RPGs de mesa e computador, RTS e shooters e olha para jogos para uma excelente forma de arte, transmitir emoções e contar histórias fenomenais.

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