The Evil Within

The Evil Within é o mais recente jogo de Shinji Mikami, o criador da saga Resident Evil, que se juntou à Tango Gameworks para criar um jogo de horror adaptado à evolução deste género. E o jogo até tenta isto mesmo a sério, infelizmente The Evil Within é um fracasso em muitos aspectos sendo o horror um deles, e usa demasiados clichés já vistos noutros jogos de Shinji (o que mostra que embora ele até seja um bom criador de jogos, não consegue fugir muito ao que está habituado a fazer). Nem sequer chegamos a meio do jogo e Shinji revela aquilo em que realmente é bom: não em criar ambientes de horror mas sim a criar shooters de zombies, por vezes recorrendo somente ao que o mapa tem de oferecer e não à nossa habilidade em carregar nos botões.

Mas vamos por partes…

 

A história

Em The Evil Within o jogador toma controlo de Sebastian Castellanos, um detective da cidade Krimson City (nomes de cidades também não são o forte de Shinji), que juntamente com os seus colegas Juli Kidman e Joseph Oda, são chamados a investigar os acontecimentos no hospital psiquiátrico chamado de ‘Beacon Mental Hospital’. Ao chegar lá, o grupo depara-se com dezenas de mortos, todos assassinados por razões desconhecidas. Ao ver as gravações de câmaras de seguranças, Sebastian depara-se com algo impossível: um homem meio queimado a teleportar-se, matando polícias com um único gesto, um ser que mais tarde descobrimos que se chama Ruvik.

A partir daí instala-se caos. Mal conseguimos sair do hospital, por um triz, toda a cidade começa a sofrer enormes terramotos semelhantes aos do filme “2012” e durante a tentativa de escapatória somos projectados para um mundo claramente surreal que parece ter sido tirado de más memórias ou pesadelos. E nesse mundo não há pessoas, apenas zombies (chamados de ‘haunted’) que são nada mais do que humanos deformados, torturados e possuídos por uma força maligna que ainda não se conhece. Sem grandes hipóteses e separado dos seus colegas, Sebastian vê-se forçado a seguir em frente. Pelo caminho encontra Leslie, um paciente do hospital psiquiátrico, e o doutor Marcelo Jimenez que sabe o que se está a passar mas que nunca revela nada de concreto (e Sebastian, por alguma razão, decide não pressionar por respostas.. mais um típico cliché de jogos de horror japoneses).

Este slideshow necessita de JavaScript.

Há medida que avançamos no jogo descobre-se mais um pouco do que se passa. Ruvik, juntamente com Jimenez, trabalharam num projecto para unir as mentes de pacientes numa só consciência. Ruvik, que em criança já mostrava algumas tendências psicopatas, que perdeu a sua adorada irmã Laura num fogo posto (onde ele também sofreu as suas queimaduras) e que depois foi forçado a viver escondido pelo próprio pai (que mais tarde matou, bem como a sua mãe), era o único com uma mente forte o suficiente para aguentar e portanto tornou-se ele próprio no hospedeiro para todas as outras mentes que foram ligadas ao seu projecto (de nome ‘STEM’). Mas quando o projecto está perto de ser concluído, Jimenez acaba por trair Ruvik, aprisiona-o e remove-lhe o cérebro para que este possa servir de hospedeiro permanente (literalmente, o cérebro de Ruvik é colocado numa esfera de vidro com agulhas e de alguma forma, e sem qualquer tubagem a bombear-lhe sangue, este é mantido vivo). Por sua vez, quando foram investigar o hospital, Sebastian, Joseph, Kidman e Jimenez acabaram por ser lançados para dentro da mente de Ruvik, tendo sido ligados ao sistema STEM mas sem terem memória de isso acontecer.

Todo o jogo passa-se então na mente de Ruvik, e no mundo deturpado e destruído por ele criado, e todas as criaturas e mapas que nele se vêem são nada mais que uma extensão da sua vontade, desejo e memórias, e que até um certo ponto acabam influenciadas também pelas mentes de quem está ligado à mente dele. Enquanto avançamos, descobre-se que Ruvik pretende tomar controlo da mente de Leslie para puder sair dali enquanto que o objectivo do jogador torna-se então impedir isso e destruir Ruvik.

Em termos de história, The Evil Within tenta pegar em algo novo: um mundo criado por uma mente perturbada e as implicações que isso poderia ter, como por exemplo a questão de ter memórias soltas sobre um mesmo assunto e de como isso nos leva a um ambiente sem nexo e a uma história contada às partes. Na teoria, isto seria não só inovador mas muito fixe. Infelizmente falha, pelo menos da forma que foi aplicado. Os mapas têm tão pouca ligação entre si que todo o ambiente parece não ter nexo algum, mais como se tivesse sido apenas os projectistas gráficos a divertirem-se criando mapas diferentes e depois juntando-os ‘às 3 pancadas’. E como se não bastasse, não há maneira de regressar a qualquer uma das áreas previamente visitadas, ou seja o jogo é liner.

Para além de ser linear, a história do jogo é fornecida independentemente do que fazemos e só começa a ser fornecida a meio. Até lá, apenas se tem a sensação de estar numa espécie de Doom (o primeiro mesmo), onde se avança pelo mapa somente porque sim. Juntamente com mapas sem nexo ou ligação, isto faz com que a sensação de futilidade aumente pois nada do que fazemos tem justificação ou sequer razão para ser feito, o que por sua vez estraga por completo o ambiente de horror pois deixamos de querer saber no que estamos a fazer.

Ciência macabra em The Evil Within

Para juntar a isto, a história está carregada de clichés. Desde Sebastian, que é um detective que perdeu a sua filha e mulher e por isso meteu-se no álcool e teve problemas com a Investigação Interna da polícia, a um hospital psiquiátrico onde os pacientes são usados para experiências macabras e ninguém o consegue provar porque quem investiga a história desaparece misteriosamente, a um ‘evil doctor’ que não quer saber de quem sacrifica para conseguir avançar na sua pesquisa e projecto, à falta de interesse que Sebastian mostra quando confrontado com outras personagens que claramente sabem melhor o que ali se passa (acontece com o doutor Marcelo Jimenez e a colega Kidman), até à traição de Kidman que revela ter sido enviada para matar Leslie (embora durante o jogo tenha tido dezenas de oportunidades mas só o decide fazer já mais perto do fim do jogo e quando sabia que Sebastian estava à procura dela). E sem contar com a típica de hoje em dia (muito usada nos filmes de terror), onde tudo é feito para derrotar o vilão, vê-mos a personagem principal a conseguir isso mesmo, mas no fim de nada serve e o vilão consegue o que queria.

Contudo, para mim a pior é sem dúvida uma típica de Shinji: Kidman trabalha para uma organização secreta que sabe do projecto e não olha a meios para o obter, uma organização que fez desaparecer quem investigasse o hospital e que até teve poder e influência para infiltrar Kidman na polícia (basicamente, uma ‘jovem Umbrella Corp’). A insistência neste tipo de história mostra bastante falta de imaginação por parte do criador japonês.

A narrativa de The Evil Within está tão fraquinha, tão baseada em clichés e tão desconecta, que esta perde interesse e rouba também interesse e ambiente ao jogo, apesar de pegar em algo que poderia ser interessante. O facto de passarmos meio jogo sem qualquer avanço significativo na história, de vermos a narrativa a crescer no quarto seguinte e por fim todo o jogo a descambar no último quarto, é a prova disso mesmo e de como The Evil Within falhou bastante no que se proponha: de ser um novo e melhor jogo de horror que está actualizado aos dias de hoje.

 

A atmosfera e gráficos

Para um jogo de 2014, os gráficos de The Evil Within são bons (nada de espectacular, mas bons). As texturas estão bem conseguidas, o jogo possui um excelente sistema de iluminação e sombras, mas os modelos das personagens deixam a desejar. Isto ajuda a conseguir uma boa atmosfera e os primeiros capítulos estão carregados de horror nessa mesma atmosfera. A escuridão, a iluminação e sombras, o excelente áudio (que felizmente está presente em todo o jogo), bem como dezenas de monstros bem mais fortes que Sebastian ajudam imenso a conseguir uma excelente atmosfera. Os primeiros 4 capítulos são, de facto, horror, deixando-nos tensos e sempre alerta.

Este slideshow necessita de JavaScript.

Mas esta atmosfera rapidamente se dissipa e logo no início do 4º capítulo (atenção, o jogo tem 15 capítulos) percebemos que The Evil Within muda de horror para um shooter de zombies e criaturas macabras. A necessidade de usar ‘stealth’, distrair inimigos, fazer ataques surpresa, desaparece e são lançadas constantes hordas atrás de hordas contra Sebastian em demasiados momentos, sem haver a possibilidade de lidar com elas recorrendo a ataques furtivos, a esconder e evitar os inimigos, a distraí-los. Apenas importa a nossa pontaria e o quão evoluído está o nosso detective com as armas que mais usamos. Aponta e acerta bem o suficiente e pode ser que sobrevivas ao ataque antes de ficar sem munições ou seres apanhado pelas costas.

Falando em apanhar pelas costas, é importante notar que The Evil Within está cheio de ‘eventos fixos’, que por mais que tentemos dar a volta a eles não é possível. Coisas como aparecerem inimigos por trás, mesmo depois de termos limpo tudo o que deixamos para trás, a ter inimigos que são completamente imunes a ataque até se chegar a uma dada altura do jogo. E o jogo decide reutilizar monstros, forçando-nos por vezes a confrontar o mesmo monstro várias vezes ao longo do jogo (por exemplo, o Keeper, com o qual se pode jogar num DLC, aparece-nos pelo menos 3 vezes durante o jogo todo). Por vezes enfrentar estes monstros é, por si só, um desafio onde temos de nos desviar deles e usar o ambiente à nossa volta contra eles, algo que até é interessante mas ao fim da segunda vez já se torna cansativo de repetir. E o facto de haver alturas onde o jogo se torna cansativo, por repetir desafios ou monstros, também reduz bastante o ambiente de horror que era suposto ter. Para o final o jogador vai estar mais interessado em disparar a tudo o que mexe do que propriamente a procurar estratégias para não ter de enfrentar inimigos ou para os apanhar de surpresa. Por volta do capítulo 12, todo o elemento de horror desapareceu por completo e este torna-se um mero shooter com muito gore e explosões onde estamos mais preocupados a contar balas e a construir munições e já nem nos preocupamos muito com o que se está a passar ou se faz sequer sentido o que está a acontecer.

Este slideshow necessita de JavaScript.

Por incrível que pareça, o ambiente mais assustador do jogo é aquele onde nenhum mal nos pode acontecer, um ‘hospital seguro’ onde pudemos evoluir as habilidades de Sebastian e descobrir equipamento precioso e algumas informações soltas sobre a história. Infelizmente alguns destes benefícios só são possíveis de obter a quem tiver paciência para gastar horas e horas a explorar todos os cantos dos mapas e a descobrir estátuas que quando partidas dão chaves para abrir cofres de equipamento. Quem quiser passar o jogo rapidamente vê-se assim em grande desvantagem.

Quando nos tempos actuais temos jogos como Amnesia e SOMA, que conseguem transmitir horror apenas com o ambiente, torna-se muito claro que The Evil Within é bastante fraco neste aspecto.

 

Jogabilidade e mecânicas

Para um jogo de 2014, The Evil Within é horrível em termos de controlos. Estes são bastante lentos e parecem ter algum atraso na resposta da personagem. Para além dos controlos, os movimentos são difíceis, com a personagem a dar saltos quando não se pretende e a não saltar quando tem uma mera queda de 2 metros à frente. Até a interacção com o ambiente é má, fazendo dos comandos um dos pontos mais fracos do jogo (pelo menos na versão Windows). E sendo um shooter, falha também em permitir coisas como usar armas ao mesmo tempo que nos mantemos abaixados, em permitir que saltemos por cima de obstáculos facilmente, em permitir que nos inclinemos nos cantos para disparar de um local escondido. Enfim, em termos de comandos o jogo dá a sensação de ter 10 anos, não pouco mais de 1.

Juntamente com os problemas nos comandos, existe também as pequenas animações de abrir portas ou passar certos checkpoints que são irritantes por não permitirem reagir nem parar a acção a meio. Então se estamos a manipular alguma manivela e estão inimigos à nossa volta, a morte é quase certa devido a estas mesmas animações. Como se não bastasse, o jogo demora mais de 1 minuto a carregar porque não é possível saltar por cima das introduções das várias companhias envolvidas, algo que é imperdoável nos dias de hoje.

Existe também a chatice da grande incompetência da personagem principal. E quando digo incompetência refiro-me mesmo a terem feito Sebastian uma personagem absurdamente fraca de base, apesar de ser polícia e ter algum treino. Se não evoluirmos Sebastian, através de frascos de gel-verde, não conseguimos avançar para algum lado. Isto porque Sebastian, de base, só consegue correr por uns míseros segundos, os seus murros mal fazem comichão, parece não ter sequer bolsos para carregar munições de pistola e pior ainda mal sabe disparar pistolas (estamos a falar de um detective treinado que de base vê os seus tiros a sofrer um arco de 5 graus, ou seja falha mais do que acerta). Esta grande incompetência é o que torna o jogo bastante difícil e nos faz repetir várias partes do jogo vezes sem conta.

Felizmente o jogo possui algumas mecânicas boas. O sistema de ‘stealth’ é excelente, dando-nos a possibilidade de distrair inimigos e fazer ataques surpresa que matam quase qualquer inimigo de uma só vez. Este sistema é a arma principal de que dispomos nos primeiros 4 capítulos do jogo. Existe também a mecânica de pegar fogo, que permite queimar e matar inimigos que estejam caídos e até mesmo pegar fogo a alguns elementos do mapa para dar muito dano aos vários inimigos que passem pelas chamas. Infelizmente não há a possibilidade de movimentar objectos, fazendo com que grandes estratégias com estes elementos sejam impossíveis.

Stealth em The Evil Within

Existe também uma arma única, uma besta que dispara dardos únicos que pudemos construir. Esta arma é bastante útil para montar armadilhas, mas só se pode carregar um número muito limitado de munições tornando-a algo a usar esporadicamente.

 

Conteúdo extra

Para compreender a história é necessário jogar o conteúdo extra, os DLC The Assignment e The Consequence, onde o jogador toma controlo de Kidman enquanto esta trabalha para a organização secreta (chamada Mobius). Aí descobrimos que o objectivo da organização é (sem qualquer surpresa) controlar o mundo, tentando usar o projecto STEM para unir as mentes de todos os seres humanos no planeta. Embora ajude a explicar a história, esta acaba por ficar ainda mais confusa deixando-nos a duvidar várias vezes sobre o que realmente aconteceu ou o que não passa de uma memória alterada das personagens.

O último DLC permite-nos jogar como um dos monstros, e jogar na 1ª pessoa. Não adiciona qualquer história relevante, apenas divertimento.

 

Veredicto Final

Shinji Mikami continua a escrever histórias crípticas, cheias de clichés e sem interesse e a recorrer a um estilo de horror que não o é de todo. Ainda para mais com jogos como Amnesia e SOMA que facilmente o ultrapassam em termos de “ambiente de horror”. The Evil Within é menos assustador que Dead Space 1 e menos shooter também, e este segundo foi lançado 6 anos antes. Se isto é a ideia que Shinji Mikami tem de “renovar o estilo horror”, então duvido que volte a pegar em mais algum jogo por ele feito.

Inovação: 4 em 10. The Evil Within não inova. Limita-se apenas a pegar em elementos que já existem noutros jogos e a tentar combina-los, por vezes bem mas muitas vezes mal. Talvez a melhor comparação que se possa fazer seja com a de Resident Evil 4 e aí sim, se calhar The Evil Within inova para melhor. Mas comparado com todo o mundo dos jogos está bem longe de o fazer.

Gráficos: 8,5 em 10. Os gráficos de The Evil Within são bons mas os modelos das personagens são fracos.

Mecânica: 5 em 10. Com tantas mecânicas com bugs, com a falta de elementos já existentes noutros jogos do mesmo género, nem mesmo as boas adições conseguem salvar The Evil Within em termos de mecânica.

Conteúdo: 3 em 10. The Evil Within prometia muito mas falhou em narrativa e no ambiente de horror ao ponto de ser desinteressante e secante.

Execução: 4 em 10. The Evil Within não foi bem executado, pura e simplesmente. Os bugs existentes não são admissíveis num jogo que se quer como “renovador do género”, e muito menos as falhas de narrativa e de ambiente quando se diz que este é um jogo de horror.