Transport Fever

Transport Fever é a reposta à pergunta “como seria se o velho clássico Transport Tycoon Deluxe fosse adaptado para os computadores actuais?”. O grande clássico que cimentou o género ‘simuladores de transporte’ é assim mantido vivo embora sobre outro nome. As semelhanças entre ambos são extraordinárias e indiscutíveis, embora Transport Fever esteja mais simplificado por um lado mas mais complexo por outro.

Desenvolvido por grupo Urban Games, e usando mecânicas já usadas em Train Fever, neste jogo tomamos controlo de uma companhia de transportes que terá de utilizar camiões, autocarros, comboios, barcos e aviões para transportar mercadorias e pessoas entre cidades e/ou indústria e assim conseguir fazer dinheiro. O jogo, no modo sandbox, começa num ano específico e avança desde aí dando-nos acesso a veículos históricos à medida que os anos avançam até aos dias de hoje onde temos acesso a veículos modernos (no total, sem contar com mods, o jogo conta com mais de 120 veículos distintos e altamente detalhados). No modo campanha teremos de atingir vários objectivos em cenários específicos todos baseados em eventos reais, como por exemplo a ligação ferroviária entre o lado Este dos Estados Unidos e o lado Oeste, ou o primeiro túnel ferroviário a atravessar os Alpes Suíços, ou a criação das primeiras linhas de transporte aéreo.

 

Conceitos simples e credíveis

Transport Fever baseia-se em alguns conceitos de mercado, simplificados claro para ser um jogo fácil e acessível a todos. Existem indústrias que produzem recursos primários (pedra, madeira, cereais, gado, petróleo bruto, carvão, ferro). Esses são depois comprados por indústrias transformadoras que os transformam em produtos transformados (placas de madeira, elementos metálicos, petróleo refinado, plástico) ou finais (comida, bens, ferramentas, material de construção, maquinaria e combustível). Os produtos transformados são comprados por outras indústrias e os finais por centros habitacionais.

Para transportarmos os produtos, temos de construir junto a fábricas paragens de camiões de mercadorias, estações de comboio ou cais de carga para barcos e depois ligar estes a outros pontos de paragem onde os produtos possam ser descarregados, com estradas ou caminhos-de-ferro, e de seguida criada uma rota de transporte à qual têm de ser atribuídos veículos/comboios/barcos para fazer o transporte dos produtos. A quantidade de recursos produzidos pelas fábricas dependerá essencialmente da quantidade de recursos secundários ou finais que consegue vender e isso estará intimamente ligado ao número de veículos/comboios/barcos que fazem o transporte pois são eles que determinam a quantidade de recursos possíveis de transportar até ao destino final. Se uma fábrica só precisa de 10 unidades de pedra para produzir toda a quantidade de materiais de construção que estão destinados a um centro populacional, então todas as pedreiras que estiverem a produzir pedra a ser transportada para essa fábrica não vão produzir mais do que 10 unidades em conjunto, pura e simplesmente porque não é possível escoar mais produto. Da mesma forma, uma fábrica cujo espaço de armazenamento do seu produto transformado ou final esteja cheio, deixará de comprar recursos a indústrias de recursos primários, impedindo-nos assim de estar continuamente só a fornecer recursos primários sem preocupações.

Complexo de indústria e paragens, estações e cais de transporte de mercadorias em Transport Fever

Claro que neste jogo não se ganha só dinheiro, também se tem de pagar custos de manutenção dos veículos/comboios/barcos/aviões em utilização, para além do custo de compra deles e do custo de compra de linhas e estações. E o custo de manutenção aumenta com o passar dos anos, portanto eventualmente temos mesmo de os substituir.

Teremos então de jogar com estes custos de manutenção, quantidade de recursos a transportar, e até mesmo número de veículos na linha (e consequentemente frequência com que os produtos são transportados e se recebe dinheiro deles) para assim garantir uma rentável rede de transporte.

 

Transporte em cadeia

Em Transport Fever é possível criar uma cadeia de transporte de mercadorias, algo que não se vê em todos os jogos do mesmo género. Isto significa que se tivermos uma fábrica com apenas espaço para uma paragem de camiões de carga, é possível ligar esses camiões de carga a outra paragem que esteja junto de uma estação de comboios de carga e assim transferir os recursos da fábrica para essa estação, de onde podem depois seguir mais rapidamente para outro destino. Cadeias de transporte são absolutamente essenciais e são feitas de forma automática dependendo do tipo de mercadoria que cada veículo/comboio/barco pode transportar. Se for restringido o tipo de mercadoria, então a cadeia fica limitada a uma só função, mas se for permitido que transportem o que puderem, então a cadeia irá funcionar para qualquer recurso que possa ser transmitido nela. À medida que se criam mais rotas de transporte para a mesma paragem, aumenta a probabilidade de se criarem cadeias de transporte que passem por essa paragem. O grande benefício disto é que os veículos passam a estar quase sempre cheios quando vão de um ponto para outro da sua rota, garantindo assim sempre lucro (em rotas normais, um veículo vai vazio buscar os recursos e volta cheio, mas efectivamente só dará lucro por metade da sua rota). O lado negativo é que leva a uma dispersão dos produtos transportados e pode mesmo acontecer que os produtos que inicialmente queríamos transportar acabem presos nas paragens por falta de veículos que os transportem (já que estes vão cheios com outros produtos e não os originalmente desejados).

A possibilidade de criar cadeias de transporte é também essencial para usufruir de vários meios de transporte, uns mais baratos que outros. Por exemplo, se quisermos atravessar um grande lago sem estar a gastar milhões a construir um caminho muito mais longo à volta, pudemos simplesmente construir cais de carga, descarregar produtos num deles, criar uma rota de barcos de mercadorias que levam os produtos para outro cais, de onde saem para uma nova paragem.

 

Transporte em cadeia

Em Transport Fever, o transporte de pessoas é feito entre centros populacionais com recurso a autocarros, comboios de passageiros, barcos de passageiros e aviões. Mas é aqui que este jogo se diferencia de Transport Tycoon Deluxe, ao definir bairros comerciais, industriais e habitacionais e ao definir a movimentação de pessoas entre esses bairros. Quem vive nos bairros habitacionais tem de se dirigir aos comerciais para adquirir produtos e trabalhar ou aos industriais para trabalhar. Embora as cidades continuem fora de escala e de realismo em termos de tamanho, esta diferenciação entre bairros permite-nos criar rotas de transporte dentro da própria cidade. Para além disso, é esta diferenciação que torna a gestão de rotas de e para um centro populacional muito importante. Por exemplo, os produtos ferramentas, bens e comida são comprados pelos bairros comerciais e a quantidade que se consegue vender depende do número de edifícios comerciais que conseguimos abranger com uma paragem/estação de mercadorias. Já os produtos maquinaria, materiais de construção e combustível têm de ser vendidos aos bairros industriais. Por fim, as pessoas têm de ser deslocadas de e para os 3 bairros.

Divisão RCI em Transport Fever

Esta divisão também mostra como o rácio RCI – residêncial, comercial, industrial – introduzido nos jogos por Sim City, e a sua coloração – verde, azul e amarelo, respectivamente – não é apenas algo presente nos simuladores de cidade como Cities Skylines, é mesmo um parâmetro já solidificado e aceite entre os fãs deste género.

A parte interessante é que o crescimento das cidades dependerá dos recursos que fornecermos a cada bairro. Se fornecermos apenas recursos ao bairro comercial, este crescerá mais do que os restantes. Já o bairro habitacional, crescerá ao longo de tempo mas também consoante o número de ligações a rotas de transporte de pessoas que esses bairros tenham. Quantas mais conseguirmos transportar, maior o crescimento desses bairros habitacionais. O crescimento dos bairros tem grande impacto nas populações que se deslocam de um centro para o outro. Por exemplo, um centro que tenha muita população mas um pequeno bairro industrial, irá movimentar as suas pessoas para que estas cheguem a outros centros com bairros industriais mais desenvolvidos. Já um forte bairro comercial irá atrair pessoas da própria cidade e de outros centros populacionais para si, pois as pessoas começam a deslocar-se para nele comprarem os vários produtos que este oferece.

Mas cuidado, com o crescer de uma cidade cresce também o tráfego viário dela, tráfego esse com o qual os nossos autocarros têm de lidar. Quanto maior o tráfego, mais lentos se tornam os autocarros e menos usada se torna a rota, pois as pessoas querem uma rota rápida ou optam por transporte próprio. Para isso teremos de melhorar as estradas da cidade, criar novos acessos e mais rotas (que vão diminuir o desejo de viajar de transporte próprio), um processo que poderá sair caro já que demolir edifícios de um centro populacional é bastante caro.

Tal como acontece no transporte de mercadorias, também é possível criar cadeias de transporte de pessoas, movimentando-as entre paragens/estações antes de chegarem ao destino final, algo bastante útil quando se usam aeroportos ou docas de passageiros, já que estes raramente chegam a atingir muitos pontos de centros populacionais, ou para criar grandes estações centrais que ligam a várias cidades e que servem de ponto de ligação entre várias cidades.

Uma mega estação de caminho-de-ferro em Transport Fever

 

Sinalização

Uma das excelentes mecânicas do jogo é a da sinalização de comboios. Com recurso a esta sinalização torna-se possível criar linhas de escape para que duas ou mais composições percorram a mesma linha, usando estas linhas de escape para se desviarem de comboios que estejam a vir na sua direcção. Permitem também sinalizar quando comboios de linhas que se cruzam podem ou não passar e até mesmo definir se uma linha é de sentido único ou não.

A sinalização de comboios requer experiência na sua aplicação e é fundamental para linhas que se cruzam ou comboios que usem a mesma linha. Isto porque a mecânica de impedir acidentes do jogo (ver em baixo) fará com que comboios nessas situações parem quando um comboio se move numa direcção em que possa intersectar outro. Cada sinalização funciona para dizer ao comboio ‘podes mover-te até aqui pois não há outro comboio que te vá intersectar’. A sinalização deve ser colocada junto às intersecções (uma em cada lado do movimento da linha) e uma vários metros atrás para assim sinalizar ao comboio que está livre de andar até à primeira sinalização e caso outro comboio se esteja a aproximar da intersecção parar apenas na segunda sinalização.

 

O mau

Se compararmos Transport Fever com Transport Tycoon Deluxe notamos que o primeiro é bem mais fácil que o segundo. As relações entre tempo de viagem, lucro e pagamento dos custos de manutenção estão maioritariamente virados para o lado do lucro. Em suma, enquanto um veículo encher, não importa o tempo de viagem ou a sua manutenção, ele irá dar lucro mesmo para viagens gigantes (o lucro escala com a distância de viagem), mesmo que seja pequeno para viagens que demorem muito tempo a completar a rota.

Outro lado negativo é que não pudemos dar dinheiro aos centros populacionais para estes crescerem e expandirem, tal como acontecia em Transport Tycoon Deluxe. E também não temos de ter em conta a nossa reputação num centro populacional, pudemos construir onde nos apetecer e até mesmo demolir os edifícios de uma cidade indiscriminadamente.

Comparando também com Tycoon, as indústrias em Transport Fever são poucas e todas elas limitadas ao mesmo formato, enquanto que em Tycoon tinhamos fábricas de tamanhos e até tipos diferentes. Por exemplo, aqui não há mais transporte de correio ou de dinheiro entre bancos. E não há centrais de energia para abastecer com carvão.

Os tempos de vida dos veículos também estão desproporcionais, com os mais antigos a puderem ser usados durante 50 anos. Juntamente a isto, o jogo não contempla acidentes nem obras nas estradas. Quando há a possibilidade de um acidente, os veículos param e esperam até essa possibilidade ter desaparecido. Estradas que interceptem linhas ferroviárias já trazem cancelas. Comboios em linhas sem sinalização que se intersectem limitam-se a ficar parados. E não há acidentes aleatórios. Isto faz com que a rotação de veículos não seja uma grande preocupação, ocorrendo só de vez em quando.

Por fim, Transport Fever está limitado no tipo de veículos que oferece. Basicamente temos comboios até aos de alta velocidade (TGV) mas sistemas mais futuristas como Maglev ou Monorail não existem neste jogo. É compreensível dado que estes sistemas não existem nem nos USA nem na Europa, os dois continentes onde o jogo decorre, mas que ainda assim limita e decepciona. Felizmente não é algo para durar, já que a Urban Games até lançou um concurso com um prémio de 5 mil euros para modders que apresentassem os melhores e mais credíveis meios de transporte futuristas e que se esperam ver até ao ano de 2050. Mas até este concurso se concretizar num update ou DLC ao jogo, ainda vamos ter de esperar.

Cruzamento entre estrada e ferrovia em Transport Fever

 

Veredicto Final

Transport Fever é um bom jogo para os fãs do género, um reviver de Transport Tycoon Deluxe ao ponto de várias janelas terem a mesma configuração, mesmo estando mais simples em alguns aspectos.

Inovação: 7 em 10. Transport Fever não inova muito face a Transport Tycoon Deluxe, usando as mesmas mecânicas principais, mas neste caso isso é bastante bom. A inovação vem na sinalização e na divisão das cidades bem como na forma de deslocação das pessoas, que está feita de uma forma simples e fácil de entender.

Gráficos: 7 em 10. Os gráficos gerais de Transport Fever não são fenomenais, aliás até se nota que há poucos modelos para edifícios, carros particulares e pessoas. Contudo, o detalhe aplicado nos veículos/comboios/barcos/aviões é espectacular.

Mecânica: 7 em 10. Usando mecânicas sólidas já testadas e adoradas, não há como falhar neste aspecto.

Conteúdo: 6,5 em 10. Apesar de não ter todas as possibilidades de Transport Tycoon Deluxe, e de não ter meios de transporte futuristas, este jogo tem um conteúdo já significativo e oferece a possibilidade de adicionar mods e addons facilmente. As notícias vindas da página oficial também dão a entender que é um jogo que irá ser melhorado e aumentado num futuro próximo.

Execução: 7,5 em 10. Para muitos, copiar algo já usado não é um bom passo num jogo de computador. Pessoalmente acho que quando o plano é trazer de volta um grande clássico é essencial copiar vários pontos e aspectos que tornavam o clássico único. E neste caso, fácil de jogar e entender. A utilização dos mesmos conceitos simples e fáceis e da mesma configuração das janelas claramente nos faz sentir que estamos a jogar o clássico e que ao mesmo tempo se está a dar um passo em frente neste género de jogos com as adições da sinalização e da pormenorização dos bairros das cidades.

Deixar uma resposta

Este site utiliza o Akismet para reduzir spam. Fica a saber como são processados os dados dos comentários.