The Turing Test

The Turing Test é um jogo de quebra-cabeças à semelhança de Portal mas sem utilizar teleportação. Em vez disso, o jogo recorre a puzzles onde teremos de activar e desactivar mecanismos, utilizando uma única pistola cuja função é carregar ‘energia’ essencial para os activar ou desactivar. À medida que o jogo progride, as salas de puzzles tornam-se mais complexas levando-nos a ter de interagir com o ambiente usando esses mecanismos, consolas para mexer ímanes gigantes, robôs e até mesmo utilizar câmaras para desviar correntes de energia ou activar mecanismos à distância. Mas The Turing Test faz mais do que desafiar a nossa capacidade lógica de resolver puzzles, também nos confronta com questões éticas e morais que eventualmente vão surgir no futuro.

Neste jogo tomamos controlo de Ava, uma astronauta que esteve 6 anos em hibernação enquanto o resto da sua equipa levava a cabo uma missão de investigação cientifica na lua de Júpiter, Europa. Ava é acordada por TOM, um super-computador que assiste a equipa e serve de ligação entre esta e a ISA (International Space Agency) e responsável por monitorizar toda a actividade tanto na base em Europa como na estação espacial em órbita. Contudo, TOM perdeu o contacto com a sua ‘versão’ na base e esteve mais de 50 horas sem contacto com a equipa, levando-o a acordar Ava (com o aval da ISA) para que esta investigasse e tentasse reestabelecer contacto. Contudo, logo de início percebe-se que algo está errado. A base, antes bem estruturada e equipada, está agora cheia de ‘Testes de Turing’. Para quem não sabe, estes testes foram desenvolvidos por Alan Turing (o pai da ciência computorizada, inteligência artificial e responsável por quebrar a maquina de código Enigma que permitiu aos Aliados vencer a guerra contra a Alemanha Nazi) e que servem para ajudar a distinguir se uma pessoa está a falar com outra pessoa ou com um computador com um grau elevado de inteligência. Para tal, uma pessoa teria de conversar com outras duas entidades sendo que uma delas sabendo que uma delas (sem saber exactamente qual) seria um computador a responder, programado para dar respostas semelhantes às de um humano. Se a pessoa conseguisse distinguir, o computador não se consideraria como tendo uma verdadeira ‘inteligência’ mas caso fosse impossível distinguir, então o computador possuiria uma inteligência ‘verdadeira’.

The Turing Test

Em The Turing Test, Ava e TOM deparam-se com uma versão do ‘Teste de Turing’, onde em vez de conversa são colocados puzzles que um computador não conseguiria resolver por requerem um certo grau de imaginação e ‘pensamento fora da caixa’, algo que um computador sem inteligência verdadeira, como TOM, não conseguiria resolver. E pelo facto de a base ter sido alterada para albergar dezenas destes testes, rapidamente percebemos que algo não bate certo e que a equipa quer manter TOM afastado.

A narrativa do jogo decorre ao entrar em cada nova sala de puzzle, com Ava e TOM a dialogarem. A história do jogo é contada através do diálogo entre os dois protagonistas bem como alguns ficheiros de áudio e e-mails com transcrições e gravações de conversas entre os membros da equipa e por vezes com TOM.  Inicialmente discute-se TOM e o porquê dele precisar de Ava, de não conseguir resolver os ‘Testes de Turing’ e, claro, a essência do que é inteligência artificial. Mas à medida que o jogo avança, a narrativa evoluí de uma conversa casual para uma discussão moral e filosófica muito mais séria, especialmente quando percebemos que TOM está a passar uma fase de crise (em tudo semelhante a Hal 9000, de “2001: Odisseia no Espaço”), onde ele questiona a validade de testes como ‘Teste de Turing’ ou ‘Quarto Chinês‘ e que determinam que ele não possuem uma inteligência verdadeira, e que ele não é apenas um assistente mas uma espécie de ‘guarda’ com algum controlo sobre a equipa toda (uma posição autoritária fornecida pela ISA). A juntar a essa ‘crise existência’, surge a descoberta extraordinária e potencialmente devastadora da equipa: a de um virus, enterrado no gelo de Europa, capaz de regenerar o ADN. Efectivamente, uma cura para a morte. E é esta descoberta que leva a equipa e TOM a desentenderem-se, com a equipa a pensar de forma emocional e levar para a Terra a ‘cura para o maior mal que afecta a humanidade’, e TOM a raciocinar de forma lógica e fria o quão perigoso isso seria (já que o vírus não discrimina e regenera o ADN de tudo, incluindo cancros, outros vírus, bactérias, e até mesmo crianças). Sendo TOM o ‘guarda’, este impediu a equipa de sair de Europa, mantendo-os lá presos a passar fome, o que por sua vez levou a equipa a tentar esconder-se de TOM e a quebrar a ligação com a estação espacial.

The Turing Test

É toda esta narrativa filosófica que torna The Turing Test numa experiência ainda mais interessante, já que ambos os lados da discussão têm pontos de vista bastante válidos, com TOM a argumentar e raciocinar de forma lógica e desprovida de moral, e Ava e o resto da equipa a defender o ‘lado humano’ e  o quão cruel é a decisão de isolar a equipa naquela lua gelada e de como TOM não tem a capacidade para decidir por não ter sentimentos nem inteligência verdadeira.

 

The Turing Test é um jogo interessante, não tanto pelos seus puzzles (a maioria é relativamente fácil para quem já tenha experiência em jogos deste género), mas pela história que nos apresenta, num futuro relativamente plausível e não muito distante.

Infelizmente, para além da maioria dos puzzles serem fáceis de resolver, The Turing Test possui uma grande falha na forma como a narrativa é apresentada: somente no início de cada sala. Não pudemos ser nós a iniciar conversa com TOM, nem sequer é possível questiona-lo quando descobrimos algumas gravações incriminatórias onde TOM é revelado como estando a ter comportamentos duvidáveis e perigosos para a equipa. E como o diálogo só ocorre em alturas específicas do jogo, se demorarmos uma hora a resolver uma sala, então demoramos uma hora sem qualquer diálogo só para que este possa continuar onde foi deixado.

Apesar destes pontos negativos, aconselho vivamente este jogo a quem gosta do género.

Avaliação: 8/10

 

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